Eram três da madrugada no final de Agosto e eu estava cantando "Bohemian Rhapsody" num bar na ABC de São Paulo com o meu primo e duas amigas nossas. Estávamos todos rindo, numa onda de alegria que contagiava qualquer ser humano que estivesse naquela zona do bar. Por outras palavras, estávamos todos bêbados. E, como é costume para quem já conhece e é amigo do álcool, nós nos sentíamos os réis (e rainhas) daquele local.
Era o meu último dia em São Paulo. O meu primo, uma espécie de pseudo-irmão que tinha desde infância, queria me levar para as famosas badaladas paulistanas (que dizem que são as melhores do Brasil) só que, devido às suas prioridades profissionais, só teve tempo no meu último dia.
"Vou te levar lá pra Avenida Kennedy, o lugar dos bares aqui e onde a galera passa a noite, ok?" disse ele.
Dito e feito. Chegamos cedo e começamos a descer a Kennedy toda (que, num frio de 5 graus e com pouco agasalho, é um suplício enorme) quando chegamos a um bar que me chamou a atenção: era um bar estilo Pub inglês, algo que nunca tinha visto antes no Brasil, que se chamava "Liverpool". Logo, relembrei-me dos meus dias na Inglaterra e disse que queria passar o resto da noite ali. E o meu primo concordou, mas por outras razôes: logo na entrada, estava a Renata, uma loira de olhos verdes, fumando um cigarro com uma amiga dela, também loira de olhos verdes.
"Tomás!!! Quanto tempo, lindo! Vai entrando lá dentro e se senta na minha mesa, vai!"
Sentamos e logo percebi que um sorriso se espalhava lentamente na cara do meu primo. "Aquela ali é a Renata! É uma amiga minha. Todos conhecem ela porque ela é safadinha! Ela não tem frescura não: sabe bem o que o homem quer!" disse ele, todo entusiasmado.
Quatro horas mais tarde, depois de muito papo e muitas e muitas
Norteñas (uma cerveja uruguaia que tem gosto de ácido e era a preferida da Renata e da sua amiga) bebidas, decidimos ir para casa. Mas não acabei no conforto da minha cama e sim, vinte minutos depois de termos saídos do bar, na casa da Renata.
"Vocês dois podem dormir no sofá" disse a Renata ao meu primo e a amiga dela, apontando para o local. "Cid, você vem dormir comigo na minha cama".
Entrei no quarto dela enquanto ela foi ao banheiro. Tirei o sapato e o meu colete de lã, o único agasalho que tinha, ficando somente com uma camisa e calça jeans. Deitei-me na cama, debaixo de um edredão de penas de ganso, bem quentinho e extremamente confortável. E foi quando a aconteceu: o sono bateu
"Não posso dormir!" pensava. Mas, cada vez que dizia isso, ás pálpebras sentiam-se mais pesadas. De repente, escuto a porta do quarto abrir e a Renata entra, se deita ao meu lado e diz "Acho que você ficava melhor sem essa camisinha aí, rapaz" e lentamente, começa a desabotoar um botão da minha camisa
"Fique acordado, seu idiota!" gritavam os meus neurónios. Mas não dava: os meus olhos guerreavam com a minha cabeça e não deu outra: os olhos fecharam e adormeci. Vitória do sono.
"Acorda Cid!" disse a Renata, me apertando o braço. "Merda!". Virou-se e foi dormir também.
Acordei duas horas depois com uma enorme dor de cabeça. A Renata encontrava-se todo enrolada ao meu lado. E eu não lembrava de nada, nem de quem ela era.
"Vamos embora, Cid!". Era o meu primo que tinha acabado de entrar no quarto. "Vou chegar atrasado pro trabalho."
Pegamos um táxi até o apartamento dele. Contei-lhe o que tinha passado comigo e perguntei a ele se, pelo menos, ele tinha tido um final mais feliz.
"Que nada!" disse ele "Eu até dei uns agarros lá na menina, mas ela adormeceu também!"
Chegamos lá na porta do apartamento e, mal colocamos a chave na fechadura, que já ouvimos a mãe dele gritando, lá no fundo do apartamento
"Vocês são safados! Passei a noite inteira acordada esperando por vocês! Onde estavam?"
"Fomos a casa da Renata" respondeu o meu primo
"A safadinha? Meu Deus, então eu não quero nem saber" disse ela.
Poucos minutos depois, o Tomás foi trabalhar. Fez uma promessa que viria me visitar aqui na Europa. E hoje aguardo, ansiosamente, a sua visita aqui.
"Então garoto? O que foi que vocês fizeram ontem?" perguntou um outro primo meu, no caminho para o aeroporto.
"Ah, fomos num bar no Kennedy e depois fomos pra casa da Renata" respondi
"A Renatinha?!" disse o meu primo, com um enorme sorriso na cara "Essa aí é bem safadinha!"